Por J.Simões

Benício, um garoto de uns oito anos, estava na garagem, montando uns brinquedos. Um garoto também de uns oito anos, negro, bem vestido, chegou à frente da casa e perguntou:

– Menino, escute. É aqui mesmo que mora o senhor Noriberto? (Falou arrastando bastante o erre, como se estivesse limpando a garganta.)

– É, é o meu pai. Disse o Benício. Mas não é “Noriberrrto”, não. É Noriberto. (Respondeu, dando uma pronúncia mais fraca, mais natural ao erre)

– Foi isso que eu falei: “Noriberrrto”. Posso falar com ele?

– Não, com o “Noriberrrto”, não. Com o No-ri-ber-to, pode.

– Então, por favor, chame logo o “senhorrr” seu pai.

– E quem é você? Quem eu digo que quer falar com ele? Um Pererê que fala rasgando a garganta?

– Sou o Átila, filho do Proêncio, “irrrmão” dele.

– Mas, o tio Proêncio é branco, e você é preto! Que “agá” é esse de você ser meu primo?

Benício, gozador como era, não perdia uma chance de ironizar. Viu no garoto um jeito estranho de “chiar” o “s” e arrastar o “r”.  Tratou logo de perturbar, tentar intimidá-lo. Mas o Átila não deu tempo, foi falando:

– Minha mãe é negra, chega a “serrr” meio azul. Nasci puxando mais para o lado dela. Mas tenho “irrrmão” branquelo, barata descascada, rato de laboratório assim feito você.

– Branquelo, “desxcaxcado” é a…

– E, crioulo Pererê é a sua!

– Ô, moleque! Que papo é esse?

– É como eu sou: bateu, levou! Quem tem pé, aguenta o chulé!

Átila falou meio cantando, ritmado, parecendo um repente, um “funk”.

– Que papo é esse de funkeiro, moleque? Perguntou o Benício.

– Não sou funkeiro, não. Só gosto de fazer rima, tenho só esse jeitão de quem vê o mundo por cima.

Agora, fez gestos e entonações, mostrando toda a ginga de um cantor de funk no palco. E repetiu a frase, ao ver que o Benício estava gostando.

– É, “véi”! Só gosxto de fazerrr rima, tenho só esse jeitão de quem vê o mundo porrr cima!

– Ih! Pai, venha ver a peça que chegou aqui! É um saci de duas pernas! Diz que é seu sobrinho. É um funkeiro “de araque”. Para começar, só fala chiando o “s” e arrastando o “erre”. Tira onda de carioca brasiliense. Eu, hein? Ninguém merece!

– Não tiro onda de nada. Só tenho um regionalismo do Rio de Janeiro e que pegou aqui em Brasília, maisx no Plano Piloto, porrrque muitos cariocas moram lá. Mas não é bem aquele chiado carioca, não. É um jeito brasiliense de falarrr, uma misxtura do chiado carioca com um arrasxtado meio goiano, meio baiano. Eu gosxto. Não vejo errro nenhum em falarrr assim, é só um jeito diferente, um sotaque. Não é exibicionisxmo nem erro de pronúncia ou de orrtografia. É só um jeito de falarr que esxtá nasxcendo aqui em Brasília.

Minha mãe é carioca, masx mudou para o Norrrte ainda menina, naquelesx assentamentosx com promessasx de emprego com bonsx saláriosx. Masx só arrasxto aquelesx “erres” “maisx” fortesx com som de doisx “erresx”. O “esse” já é uma coisa misxturada, é do Rio e do Acre. O candango, o filho do carioca, nasxcido e criado em Brasília, esxtá criando esse jeito soprado e chiado de falarr. Sou todo misxtura de branco e negro, de carioca, acreano e brasiliense. Depoisx que cheguei aqui, há doisx anosx, passei a misxturarr tudo. Em algumasx horasx arrasxto, em outrasx, não. Àsx vezesx, faço de brincadeira, de gozação. Quando presxto atenção, consigo falarr sem arrasxtarr nada.

– E aí, Atilão, o garoto cidadão! Apareceu mesmo?

– Apareci. O senhorr me convidou, eu vim. Ganhei a aposxta, ganhei a minha bola. Quero verr se esse “Mauricinho” seu filho sabe jogarr bola.

– Ih! Pai, perdeu uma aposta para esse moleque pererê?

– Moleque pererê, não, seu “rato de esxgoto”, sua “barata desxcasxcada”! Sou negro, mas tenho asx duasx pernasx, sou um menino inteligente, muito macho! Querr sairr na porrada?

Perguntou o Átila, brincando, gesticulado, pulando imitando boxeador. Agora, parecia um Tico-tico pulando de galho em galho.

– Pára com isso, Atilão! O Benício é brincalhão, um sacana. Depois, sei que você não liga para essa história de cor. Você é um menino feliz, um grande cidadão.

– Cidadão, pai? O que é que essa figura tem para ser cidadão?

– Tio, deixa essa que eu explico. E vou falar, aqui, na sua casa, sempre que conseguir, sem sotaque.  Primeiro, não é que eu não ligue para as gracinhas sem graça, as discriminações que fazem comigo.

– Eu ligo, sim. Mas levo de boa pra não ficar pior. Aí, finjo que sou descolado nisso, mas sofro e sinto a sacanagem que fazem comigo. Fazer o quê, né? Sou negro mesmo, sou da melanina!

– Eu me curto assim mesmo, tiro sarro, apronto todas. Se ser negro é um defeito, o que, para mim não é, tenho de ter outras qualidades. Tem onça de tudo que é cor, e é onça do mesmo jeito. Tem cavalo de toda cor, e é só cavalo! Por que gente tem de ser diferente? Tudo nasce, come, bebe, mija… morre e vira carniça!

– Na matéria, não vejo privilégio nenhum do branco ou amarelo! É tudo matéria! Morreu, apodreceu! O barato de alma, de Céu ou Inferno, nunca ouvi dizer que tenha Céu ou Inferno diferente para cada cor, cada classe social! Meu barato é fazer desse lugar aqui, onde eu estou, o meu Céu. Aí eu me descolo, eu vivo! Nunca encontrei com um morto, não sei o que ele pensa ou sente e muito menos qual é a cor da alma de quem já morreu.

– Chega! Devolvi o que engoli sem querer.

– Depois daquele dia que o senhor me chamou de “pequeno cidadão”, fui ao dicionário e vi o significado. Li tantas vezes que até sei quase de cor. 

– Cidadão, seu “coalhada”, “bocó”, quer dizer que é “o conjunto dos cidadãos (pessoas) que constituem uma cidade, é a comunidade organizada politicamente e, por isso, adquire o estado de cidadão. É o vínculo político que liga o indivíduo ao Estado e que lhe atribui direitos e deveres de natureza política”. A nacionalidade, por exemplo, é um direito; já o civismo é um dever do cidadão. É, também, alguém que, no exercício da sua cidadania, não aceita desaforo, não gosta de ser enganado ou enrolado. É o indivíduo que se defende, que busca os seus direitos e cumpre com os seus deveres.

– Minha mãe diz que se uma palavrinha de fato funcionasse, esses baratos de discriminação, segregação, essas melecas todas não existiriam, é uma tal de “ética”, que nem sei direito o que é isso.

– A definição eu sei, mas não sei como funciona, porque não vejo isso na rua. Como não funciona eu sei. Por exemplo, o Benício foi totalmente anti-ético comigo, hoje, ao duvidar da minha inteligência, da minha condição de primo dele. Só porque sou preto?

– Eu tento ser ético, na minha vida de rotina, mas é um saco. Sempre tem um querendo dar golpe no outro, desrespeitando leis, levando vantagem.

– Foi por isso que o tio me chamou de cidadão, lá na minha casa. Ele brincou comigo e eu gostei da brincadeira. Contei uns casos que aconteceram comigo, dentro dos ônibus, defendendo direitos de mulheres, velhos e meninos.

– Um dia, uma velhinha estava na parada do ônibus, deu sinal e o motorista não parou. Quem era o motorista? Meu pai. Mesmo sendo meu pai, dei uma dura nele. Perguntei por que ele não parou. O velho se calou, mas me mandou ficar de boa, na minha, para o povo do ônibus não começar uma bagunça.

– E esse apelido pegou! Contei o caso na escola e, aí, todo mundo passou a me chamar de “pequeno cidadão”, “garoto cidadão”. Na minha rua, agora, sou só o “Cidadão”. Quando querem falar comigo, gritam lá de fora:

– O “Cidadão” está aí?

– Sabe de que música eu mais gosxto, depois daquele dia? Uma que o Zé Ramalho canta, a “Pequeno Cidadão”.

– Hoje mesmo, quando vinha, briguei com o motorista, porque uma velhinha que estava na parada pediu para ele parar e ele não parou. Fui para a frente e briguei, questionei. Só porque a velhinha tem passe livre, entra pela frente, o sacana não quis parar para ela. Veja se pode uma coisa dessa?  Descarreguei nele o que não pude desovar com o meu pai.

– Naquele dia, o tio me fez umas perguntas e eu respondi.

– Tudo começou porque fui comprar refrigerante e não havia troco. O cara queria me dar troco em balinha, cara! Aí eu perguntei se ele, quando eu voltasse lá, aceitava as balinhas em pagamento de qualquer mercadoria, e ele disse que não. Chutei o pau da barraca! Devolvi e fui comprar em outro lugar. Contei a história, quando cheguei, e o tio começou a me fazer perguntas.

– É, filho. Brinquei com ele, naquele dia, porque achei engraçado um garoto tão pequeno e já com esse jeito de quem conhece os seus direitos. É claro que o comerciante deve ter troco para os clientes. Fui conversando, e ele sempre respondia e contava casos, com esse jeito exigente, querendo tudo certo. Aí, botei apelido nele de “garoto cidadão”.

– Xi! Moleque, de onde tirou essa?

– Minha mãe, a Margareth, é negra, azulona. Mas nunca deixou ninguém fazer humilhação com ela. É preta e pobre, mas luta, “fala sempre na lata”. E foi por isso que se casou com o meu pai. Viu o ”bonitão”, parou na dele. Brigou com todo mundo, mas me fez e se casou com ele. Meu pai também é assim. É branquelo, brincalhão, mas é “da hora”!

– Minha mãe era professora lá no Acre, quando conheceu meu pai, numa escola noturna.

– Motorista é andarilho, cada tempo em um lugar. Ele trabalhava numa empresa de ônibus que prestava serviço para a prefeitura. Levava o pessoal das vilas para estudar na cidade, à noite. Ela era a professora. Ele levava e trazia a minha mãe, até o ponto em que ela descia. Ele passou a assistir às aulas dela, embora já fosse alfabetizado. Virou namoro e eu nasci.

– Assim, rapidinho? Foi só rolar e já saiu aí a peça rara, essa figura mal-acabada?

– Ô, branquelo! Pulei a parte de quando eu não era gente, né! Como é que vou saber o que rolou? Você já perguntou isso pra sua mãe? Já sabe de que jeito seus pais fizeram você? Ainda pensa que a cegonha é que te trouxe no bico? Isola, né! Ninguém merece!

– Minha mãe, acho até que podia responder, depois de me mandar eu me mancar. Se eu insistisse, acho que contaria. Meu pai, se perguntar isso a ele, acho que levo um tremendo dum tapão na fussa!

– Mas sei de umas coisinhas, casos que eles comentam com amigos e acabo esxcutando. Esses coroas acham que falam as coisas deles, lá nos cochichos deles, e a molecada não esxcuta, não entende. Criança é safa! Esxcuta tudo, entendi tudo! Ainda mais esses baratos de namoro, essas coisxas que a gente querr aprenderr, fica ligadão! Pega tudo!

– Foi com ela que aprendi, por volta dos três a quatro anos, a ler. Li muitos livros, desses escritos para criança. Livros mandam a gente ter educação, mas, levar desaforo para casa, não!

– Rapaz, como é que você consegue chiar tanto e arrastar tanto “erre”? Corta essa, meu! Que paia!

– Do mesmo jeito que você consegue falarr tanto “tá”, “tô”, “chegá”, “falá”. Você come letras e sílabas do início e do fim das palavras, fica mais esse jeitão goiano de falarr.

– Eu arrasxto os meus “erres” e “esses”, mas é só uma forrma diferente de falarr, um cosxtume. E nem esxtou chiando muito, porrque esxtou me policiando. É um regionalismo daqui de Brasília, do pessoal do Plano Piloto. Estranhei isso, quando cheguei aqui. Depois, de brincadeira, comecei a imitarr e agora pequei a mania.

– Quando chegamos de mudança, nos primeiros dias, minha mãe arrumou emprego de doméstica, num apartamento, e me aceitaram na escola da quadra. Fiquei conhecendo um monte de meninos filhos e netos de cariocas. Estranhei e gostei tanto daquele sotaque que passei a imitar, peguei um pouco do “dialeto brasiliense”.

– Agora já acho natural e gosxto tanto que forrço um pouco a pronúncia. Acho que isso também é cidadania, cada um falarr o seu sotaque. Isso é resxpeito ao indivíduo, ao cidadão. Mas, agora, estou me esforçando para não chiar e não arrastar. Não quero o branquelo me olhando com essa cara de, como diz o meu pai, “cara de ataiá égua”.

– Também não gosto de falar errado, sem pronunciar direito os finais de palavras, os “erres” e “esses”, por exemplo. Quem fala errado, diz a minha mãe, acaba escrevendo e pensando errado. Então, depois que aprendi a ler e que fiquei gostando muito dos livros, procuro falar imitando o que é escrito. Na escrita, vem todas as letras e procuro pronunciar todas elas. É difícil, mas eu tento.

– Cada um que fale do seu jeito, mas eu prefiro tentar falar obedecendo às regras gramaticais. Mas não tenho mania de acerto, não. Falo quando quero, sem me exibir. Também, não fico corrigindo ninguém, torrando a paciência, sendo mal-educado. Cada um que fale do seu jeito.

– Mas é muito chato – disse o Benício – fica parecendo esses doutor, esses político.

– Eu sei que é – respondeu o Átila. Todo mundo me diz isso, mas foi uma escolha minha. Planejei isso e a minha mãe me ajudou, ensinando gramática e dando livros para eu ler. Meu pai não fala assim, não. Nem a minha mãe puxa muito por esse lado. Ela fala naturalmente, sem forçar, e até já esqueceu um pouco o chiado carioca.

– Eu é que quis ser assim. Será que não fica mais bonito falar certo? Por exemplo, essa frase que você acabou de falar, não ficaria mais bonita se você falasse:  – “… fica parecendo esses doutores, esses políticos?”

– Todo mundo sabe – disse o Noriberto – que o seu jeito, sem o chiado e o arrastado, é que é o certo. Mas é muito chato ficar falando tudo certinho, conjugando os verbos corretinhos. A língua falada é solta, é mais livre o jeito de cada um se comunicar, ninguém vai pensar se está falando conforme a regra ou não, na hora de conversar.

– É mais difícil, Tio, não é chato. Acho chato é falar errado, para todo mundo ficar vendo que a gente é meio analfabeto. É uma questão de gosxto. No meu caso, é intencional, porrque, porr serr preto, quis mostrarr que sou capaz de falarr cerrto. Mas o povo me torra, me faz pergunta, manda eu cairr na real.

– Quando quero, consigo falar sem esse “r” arrastado e sem chiar o “s”, mas não sei falar comendo letras e sílabas finais. Mas acho uma violência eu ter de mudar o meu jeito de falar só para agradar os outros. Agora, por exemplo, estou me violentando só para não ver o cara de barata que saiu da toca desse aí, o barata desxcasxdada. Olha a cara dele! Para com isso! Sai dessa!

– Um dia, um branquelo gorducho estava falando sobre futebol. Me olhou e foi logo falando que eu era flamenguista, porque todo preto é flamengo. Ele era Fluminense, porque aquilo é que era time de branco!

– Cara, dei uma dura! Sujeito mais otário! Soltei os cachorros nele! Meu pai é branquelo e é Flamengo. Minha mãe é crioulona e é Vasco. Eu não sou é nada, não curto time. Curto futebol, seleção, mas não me amarro nessa de discutir time. Que cada um tenha o seu. Ganha uma, perde outra e a vida continua. Agora, a cultura, a atitude, essa é que cada um tem de ter a sua.

– Cara, sabe que é isso mesmo. Nunca tinha pensado nisso, mas vendo você falando, é assim mesmo.

. – Você, Benício, não vê isso, não! Você é branco, tem pai que te dá tudo, paga escola particular, vida boa! Os caras te olham com simpatia, admiração e respeito. Agora, um moleque, como diz você, um “moleque Pererê”, feito eu, é visto com pena e discriminação. Todo mundo pensa que sou coitadinho e marginal da pesada.

– Os caras me olham e vejo que me tiram, me isolam. Nem me veem direito, os sacanas. Fingem não me ver. Mas isso é só eu que vejo e sinto. Ninguém percebe isso, porque é sutil, só no jeito, na atitude. Ninguém é bobo de sair falando que não posso entrar aqui e ali porque sou negro, ou que vai tomar cuidado, porque posso roubar a loja, porque sou negro. Se falar, sabe que pode levar processo. Ninguém fala! Ninguém é besta!

– Entra, Átila – Disse o Noriberto. Vamos almoçar, depois eu vou comprar a sua bola.

– Posso irrr junto? Perguntou o Átila.

– Pode, mas só se falar sem arrastar o “r”, sem esse “irrr”! Respondeu o Benício.

– Eu falo: “ir”! Viu? É só falar rápido, curtinho.

– Pai, que aposta foi essa com ele? Perguntou o Benício.

– Ele falou que viria aqui, sozinho, lá de São Sebastião. Eu disse que se ele viesse, eu lhe daria uma bola novinha.

– Ando para todo lado sozinho – Disse o Átila. Minha mãe me manda por essa Brasília toda. Resolvo tudo. Ela fica trabalhando ou com os meninos.

– Também não exagere – Disse o Noriberto – né, Atilão. Você faz umas coisinhas, leva uns recados. Também, seu pai é motorista de ônibus, conhece todo mundo. Você não desgruda dele, conhece tudo que é motorista. Assim é fácil.

– Outra coisa que você precisa fazer, continuo o Noriberto, é saber que ainda é uma criança. Esse seu jeito muito adulto, muito consciente, pode prejudicar a criança que você ainda é.

– Outro aspecto é que, por você ser negro e tentar ser diferente, as pessoas podem pensar que é um tipo de auto discriminação. É você mesmo se discriminando, mostrando que é negro, mas tem inteligência e cultura.

– Assim, você se torna antipático, petulante. Ninguém gosta de quem se acha o tal, o cara! Esse seu jeito da ideia disso, de um cara que se acha! Menos, né! Faça as coisas com mais naturalidade. Seja mais discreto, mais ligth. Forçar a barra é fria, burrice.

Enquanto entravam, foram conversando. O Átila ouvia com atenção e resolveu falar:

– Minha mãe me fala muito nisso. E eu, às vezes, me confundo todo. Uma hora falo certo, em outra falo errado. Uma hora brinco como criança, sou ingênuo, menino mesmo. Noutra, “dou essa de adulto”. Meu pai, igual ao tio, já diz que tenho é de ser natural, não forçar nada, não exagerar.

– Pois é, disse o Noriberto. Estudar, falar certo, querer consertar coisas erradas, tudo isso é muito bom e necessário. Mas tem de ser algo espontâneo, natural.

– Não force nem apresse as coisas. Para tudo há um tempo certo, um lugar certo. É preciso viver cada uma das nossas fases. A vida é sua, mas a comunidade, a sociedade é de todos. Além de viver, é preciso conviver.

Átila, ouvindo e já tentando colocar em prática o que ouvia, mesmo sem entender perfeitamente, foi entrando e observando a casa. No meio da sala, viu um carrinho e correu, ia pegando, mas parou e perguntou ao Benício:

– É seu? Posso brincarrr?

Aquela fala, com aquele “brincarrr”, já foi motivo de riso. Na sala, estavam a tia Nazareth, a prima Paloma, de uns cinco anos e o primo Régis, de uns doze. Foram ouvindo o Átila falar e desabaram a rir, seguindo as molecagens do Benício, repetindo as palavras arrastando os “erres”.

– Aí, pessoal, esse panaca só fala chiado e arrastando o “erre”. Brincarrr, estudarrr, falarrr! E o “esse”, parace que fala tudo com “esse” e “xis”: “esxtudarrr”, “desxcasxcado”, “coisasx”. Qual é, moleque!

Sem dar muita atenção à resposta do Benício, Átila pegou o carrinho e correu para o quintal, brincando, fingindo não estar ouvindo nem vendo a gozação que faziam com ele. Atrás dele, veio a família inteira, rindo:

– E aí, meu – Disse o Regis –, fala o meu nome!

– Como é o seu nome?

– Régis.

– Já sabe que vou falar chiado. “Régisx”. Mas não arrasxto o primeiro “erre”. Perdeu a graça! É igual imitar criancinha aprendendo a falar, repetindo errado o que ela fala. Que graça tem ver alguém falar errado ou falar o seu sotaque regional? Falo o seu nome, sim: Régis! E aí, que graça tem falar certo? Falar certo, não: falar do seu jeito, porque o meu também é certo. Regionalismo ou sotaque não é erro, é só um outro modo de fala. A graça é ver a desgraça do outro?

– Do meu jeito, se quiser forçar, eu falo “Rrrégisx”. Eu tenho o meu sotaque e vocês têm o de vocês. Acho que a graça é cada um ser o que é, falar o seu sotaque, viver a sua opção, sua liberdade. Ou será que vocês estão achando tanta graça só porque sou preto?

– Ninguém está achando graça só porque você é preto, Átila. Falou a tia Nazareth. Achamos graça porque você é engraçado, divertido. É um menino diferenciado, tem um jeito especial de ser. Claro que, por ser negro e pequeno, fica mais engraçado. Você é uma peça rara! É o cara! Mas não fique se achando, não! A gente, aqui, brinca e apronta com todo mundo. Entre nós, é um pegando no pé do outro o tempo todo. Se um dá bobeira, o outro pega.

– E esse seu nome, Átila – Indagou o Régis, de onde saiu?

– Da Mitologia Gótica. Significa “pequeno pai”. Foi minha mãe que colocou, porque minha gravidez foi muito difícil, com ela passando mal e sem dinheiro para remédio, brigando com a família dela.

– Na hora de eu nascer, meu cordão umbilical estava enrolado no meu pescoço, mas, mesmo assim eu nasci e vivi, como se fosse um guerreiro. Aí, ela gostava desse nome, sabia que houve um rei, antigamente, que era um grande guerreiro, muito valente, que tinha esse nome?

– Então, sou um “pequeno pai” para os meus irmãos: ensino, ajudo, defendo, brigo por eles. Como diz o tio, sou um guerreiro porque brigo pelos meus direitos, pelos meus sonhos. O tio trocou o nome: no lugar de  “pequeno pai”, colocou “garoto cidadão”.

– É isso aí, Cidadão! Dê duro nesses seus primos. Não entregue o ouro, não! E não fiquem chamando o Cidadão de moleque, não, viu!

– Tem nada, não, tio. Moleque, do jeito que eles falam, é gíria, é um jeito de brincar.

– Depois, tio, minha vida é isso aí, para todo lado que ando. Tenho as minhas manias, sim, mas a cabeça é solta. Sou inteligente, alegre e feliz! Faço amigos para todo lado, principalmente quando brigo com alguém, dentro do ônibus, por exemplo, para dar lugar às mulheres e aos velhos. Primeiro as pessoas estranham, mas depois concordam e fazem as pazes comigo.

Enquanto falava, Átila já estava com uma bola na mão e, meio sem jeito, Régis pulou na mão dele:

– É isso aí, seu moleque! Vamos para o campinho, ali. Vamos jogar bola.

Enquanto saia, Benício tomou a bola do irmão e foi chutando, driblando mesa, cadeira, sofá. Ganharam a rua, enquanto a Nazareth gritava:

– Só uns dez minutos, viu! O almoço já está quase pronto! Não atrasem, porque hoje é sábado e a Dirce precisa ir embora mais cedo. Se vocês atrasarem e a Dirce sair, vão ter de lavar as vasilhas depois.

Mas foi preciso o tio Noriberto ir atrás da molecada, chamar para o almoço.

– Pai, disse o Régis,  esse moleque é “o bicho”! É o “cão chupando manga”!

– É, pai, disse o Benício, ninguém aguenta, não. Isso corre mais que um raio. E dribla todo mundo. É um cisco, é… Pelé, Robinho… é mole pra ele!

Vieram para o almoço, conversando. Já não se lembravam mais que o Átila arrastava o “erre”, não riam mais do que ele falava. Dentro daqueles poucos minutos, já estavam amigos.

Almoçaram ouvindo o Átila contar um pouco da história cidadã dele, brigando com gerente de banco para diminuir as filas. Em hospital, toda vez que ia, arrumava um motivo para não ver certas pessoas ficarem esperando na fila. Não suportava, por exemplo, ver mulher grávida esperando horas e horas por uma consulta.

Saíram para comprar a bola oficial. Átila não quis, de forma alguma, bola de plástico, de salão ou qualquer outro tipo. Era bola oficial, que era para jogar no time da quadra dele. Recebeu a bola, embrulhada em papel de presente, deu um abraço no tio e disse, meio chorando:

– Obrigado, Tio. Esse é o meu presente de Natal! Foi esse o presente que meu pai me prometeu: deixar eu vir aqui, sozinho, ganhar o meu presente.

Meio sem saber o que falar, o tio perguntou:

– E você veio só, mesmo, seu cabra da peste?

– Vim. Meu pai deixou e fez outra aposta comigo.

– Que aposta – perguntou o Régis? Outra bola?

–Não. Ele disse que, se eu chegasse aqui, sozinho, antes do meio dia, ele me deixaria passar o Natal aqui. E eu cheguei. Ganhei a aposta.

 – E como é – Perguntou o Régis – que o seu pai vai saber que você veio sozinho e chegou antes do meio dia, seu moleque?

– Perguntando para o seu pai, seu “moco”, seu Régis “bocó”! Mas não vou querer passar o Natal aqui sem eles, não. Aqui tem coisa de rico, de gente…

– Não sou rico, não, Átila – Disse o Noriberto. Só tenho um emprego melhor do que o seu pai. Ele não quis estudar, foi ser motorista. É do que ele gostava, de caminhão. Eu estudei, fiz uma porção de cursos, passei em concurso.

– Sei disso, Tio. E não sou do tipo que tem inveja, não. Fico é feliz que o senhor tenha conseguido, com seu esforço. O senhor é meu exemplo. Converso muito isso com os meus pais, falo da vida que o senhor tem, porque estudou, e da que nós temos, porque meu pai não estudou.

– Meu pai me contou a sua história de sucesso, com base no esforço, na luta. Igual a ele, vieram do interior, pobres. A dele é barra, salário de motorista é… Vamos mudar de assunto. Está aqui o meu presente! Vou abrir só na noite de Natal. Vai ser um dia muito feliz na minha casa.

– Só que não vai ser na sua casa, Átila – Disse o Noriberto. Combinei com o seu pai, todo mundo vai passar o Natal aqui na minha casa.

– Mesmo, Tio? Meu pai me enganou! Que moleque!

– Mesmo! E só faltam dois dias!

Átila deu um pulo para cima, com os olhos tão brilhantes de alegria que pareciam sair faíscas. Numa fração de segundos, os três meninos ganharam a rua, com a bola do Benício, indo rumo ao campinho da entrequadra.

Aqueles dois dias que faltavam para o Natal foram bastante agitados para os filhos do Noriberto. Estavam acostumados a ficar mais em casa, saindo para brincar só aos finais de tardes.

O Átila rompeu com aquela rotina. Logo ficou sabendo que ali perto havia uma cachoeira, numa reserva ambiental, o Parque do Cortado, e fez o tio ir com eles, no outro dia cedo. Tomaram banho de cachoeira, subiram nas árvores, correram, fizeram balanço, aprontaram todas.

Aproveitou aquele momento para contar o que fazia em São Sebastião.

Falou dos programas sociais que existem na cidade: capoeira, dança, grupos de hip hop.

Ele fazia parte de um grupo, daqueles garotos que cantam e fazem apresentações em praças públicas, fazendo acrobacias. Naquele grupo, foi que ele se enturmou mais com os garotos do local, faziam reuniões para discutir programação, apresentações, coreografias.

Nas igrejas havia vários grupos voltados para esses trabalhos sociais. Mas aí ele não participava muito, porque a maioria dos programas era para meninos de rua e ex-detentos.

Na escola, havia muita coisa fora do currículo, com professores fazendo projetos de integração entre esportes, meio ambiente e cultura em geral. Ele fazia parte do grupo de leitura, porque gostava de ler muito. Aí, assistia muitas palestras e oficinas com escritores. Estiveram lá muitos escritores, falando das obras deles, contando as suas histórias pessoais.

Quase só ele falava, porque, quando ele parava e pedia para os primos contarem as histórias deles, não queriam contar nada, não tinha graça. Nunca fizeram nada de especial. Participavam de programas na escola, mas coisa comum, trabalhos de grupo.

Nenhum dos sois era engajado em programas culturais ou sociais. O Régis tocava violão, estava tentando montar um grupo, só com amigos, para tocar pagode.

Quando chegou a noite, foi hora de brincar dentro de casa. Primeiro, Régis levou o grupo de pagode dele e cantou mais ou menos uma hora. Tocavam esses pagodes conhecidos, não tinham, ainda, produção deles mesmos, mas estavam pensando compor algumas músicas. Mas isso ainda era uma ideia longe, para, caso resolvessem gravar um CD. Quando pararam de tocar e cantar, o Régis quis fazer uma brincadeira com o Átila:

– Dizem que todo negro é bom de samba. Samba aí, seu moleque bamba!

Na tentativa de zombar do garoto, foi colocando aquelas músicas baianas e mandando o menino fazer as coreografias, imitando as dançarinas. Na música da “boquinha da garrafa”, ele deu um show. Levou tudo na brincadeira e desafiou quem dos três fazia melhor.

Até a Paloma entrou na brincadeira, mas ainda muito pequena, não conseguia agachar em cima da garrafa. Acabou que todo mundo entrou na brincadeira, querendo demonstrar que sabia dançar samba.

Mudaram a música, colocaram a “Segura o Tchã” e aí foi uma gritaria geral, porque o menino se contorcia todo naquelas cenas obscenas. Tiraram a Paloma de perto, para não ver aquela molecagem.

Até a tia Nazareth saiu de perto. O menino fazia as movimentações safadas dele e os outros caiam na gritaria, nas gargalhada na maior altura do mundo.

Iam colocar outras músicas, mas o Noriberto achou por bem mandar parar aquilo, estava ficando um clima muito forte não só para o Átila, mas para os outros garotos também, embora fossem todos mais velhos do que ele.

Átila ainda argumentou que aquelas cenas eles faziam no grupo de cancã, com as meninas, que tudo era brincadeira e teatro. Mesmo assim, o tio mandou parar, estava fugindo aos princípios de um comportamento familiar. Dentro de casa, com aquela imoralidade toda, não estava certo.

Átila não tinha mais tempo para nada. Havia feito uma legião de amigos na quadra toda. Agora, a toda hora, era a meninada querendo brincar com ele. Não tinha tempo nem de ler aqueles livros que ficavam na estante dos primos. Jogar bola, então, todo mundo queria estar no time dele. Sem que percebesse, aqueles dois dias passaram e ele tornou-se uma espécie de “mascote” da quadra.

Quando havia tempo e o deixavam sozinho, ele entrava para o quarto e lia.

Às vezes, pensava naquela história de “ainda ser uma criança”, de que o Tio Noriberto falou, ficava preocupado.

Gostava mesmo era de brincar, ser criança, mas aquela coisa de “cidadania” estava na alma dele, no jeito mesmo de ser.

Talvez o pai e a mãe exigissem muito dele, principalmente o pai, por ele ser o mais velho, por ter de tomar conta da casa e dos irmãos para a mãe ir trabalhar. Talvez por ter aprendido a ler muito cedo. Será que aprendeu aquilo com os livros? 

Mas, essas idéias e momentos não demoravam muito, os primos chegavam e ele contava algumas das suas histórias vividas dentro de ônibus, com o pai dele; viajando pela cidade e, quando era viagem para outras cidades, às vezes ele ia, também, se o fiscal deixasse.

Fazia isso mais para pegar livros, jornais e revistas dos passageiros e ficar lendo e discutindo com eles. Falava de tudo, qualquer assunto. Quando envolvia assuntos de trabalho infantil, é que ele gostava mais. Virava um bicho, parecia saber mais desses assuntos do que os adultos.

Depois que entrou para a escola, ficou mais difícil, pois o pai não o deixava matar aulas e nem ele queria, pois queria estudar muito para ser um Advogado.

– Cara, cê faz dessas molecagens dentro da sala de aula? Perguntou o Régis.

– Na sala de aula, não faço bagunça, essa parada de atazanar a aula das professoras. Não, lá eu sou sério. Quando é atividade, faço de tudo. Se é pra dançar, cantar, jogar… qualquer atividade, topo tudo.

– E com as professoras, nunca pintou assim um clima de guerra?

– Não. Comigo não. Mas vi uma parada federal com um menino, um lourinho. De tão lourinho, primeiro foi apelidado de Xuxinha. Ele virou uma fera e, aí, para não mexer com a revolta dele, colocaram apelido de Paquito. Ficou sendo Paquito.

– Um dia, numa prova, a professora pegou ele colando. Tomou a prova. O cara não se conformou de jeito nenhum! Gritou pela sala, pulou, esperneou. Ele sempre fazia isso, quando era contrariado em alguma coisa, armava o maior barraco.

– A turma caiu de vaia nele, porque a professora mostrou os papéis que ele tinha colocado dentro do livro e, depois, colocou dentro da prova. Foi aí que a professora viu, mas deixou que ele usasse aquilo um pouco. Ele ficava virando a prova toda hora, para ler a cola. Olhava na mão, também.

– Quando a professora chegou, tomou a prova e a cola, ele deu piti. Virou um corrupio na sala, gritando, pulando, jurando por tudo que é santo que não estava colando, nem tinha olhado aqueles papéis. Mas a turma toda apoiou a professora, todo mundo viu.

– Ficou ainda mais com raiva, mais bravo, quando a professora segurou a mão dele. Ele foi tentar tomar a prova da mão dela e, na hora, ela segurou e viu que havia muita coisa escrita na mão dele.

– Aí foi que ele virou bicho. Ela segurou a mão dele para cima e mostrou para tudo mundo que a mão e o braço estava tudo escrito com cola. Ele pulou, gritou, falando que aquela não era da matéria dela, era da matéria da outra professora que havia dado prova antes.

– Ela, então, falou que iria mandar a outra professora também dar zero para ele, porque ele havia colado na prova dela. Falou aquilo e virou as costas.

– Cara, o moleque ficou doido, virou bicho.

– Foi a professora virar as costas, ele correu e pulou nas costas dela. Pegou a mulher pelo pescoço e ficou tentando enforcar. Foi uma gritaria maior do mundo. O moleque ficou doido. Foi preciso a sala quase toda socorrer a professora, tirar o moleque de cima dela!

– Moleque doido! Não queria soltar a garganta dela, não! Só soltou porque a gente pegou, um bando de menino e menina, puxou as mãos dele, até fazer soltar. Foi o maior rebu naquela sala.

– Isso rendeu foi muito. Ele ficou com zero nas duas matérias, e jurou que iria se vingar. Veio a Diretora que mandou chamar os pais dele e a aula, depois daquela hora, foi só até a gente entregar a prova. Coitada da professora ficou com o pescoço roxo e o rosto arranhado.

– Ele seria transferido ou remanejado, sei lá como é o nome, para não falar que seria expulso.

– Só que a professora não quis. Botou o moleque sentado na frente dela, dos pais e da Diretora, fez ele pedir desculpas e jurar que não iria fazer nada contra ela, não iria repetir aquilo mais. Nunca mais iria fazer aquelas cenas de birra e de piti.

– Ele aceitou, porque já tinha vindo remanejado de outra escola.

– Mas a escola montou uma forma de proteger a professora. Colocou o moleque em outra turma e fez ele jurar que não iria se aproximar dela.

– Só que, mesmo com as promessas dele, a professora passou a andar o menos possível no corredor, só mesmo para ir e voltar da sala e, nessas horas, o policial de plantão ia com ela.

– Acabou o ano, isso era mais ou menos em outubro, e ele não fez nada, ainda. A gente da sala ficou de alerta, todo mundo com medo, porque ele poderia, mesmo de fora da sala, jogar pedra ou alguma coisa nela.

– Tiro, poderia dar, mas o policial, todo dia, revistava as coisas dele.

– O medo maior era de ele entrar em alguma gang, porque lá tem é muito disso, gang de pichação, de tráfico de droga. Se ele entrasse numa dessas paradas, um dos colegas dele poderia fazer a vingança para ele.

– A parada ficou foi ruim para ele, que ficou vigiado por tudo mundo. Perdeu os amigos, porque ninguém mais queria brincar ou se enturmar com ele.

– Eu mesmo, caí fora. Era até chegado dele, mas, depois daquela, pulei fora.

– Sei que ele está fazendo tratamento com uma Psicóloga.

– O moleque tem de ir ao consultório dela e, todo mês, ela apresenta um relatório do comportamento dele.

– A outra professora, também, toda semana tem de fazer um relatório sobre ele.

– O galego ficou cercado. Tudo que ele faz tem alguém olhando, anotando. Vai sarar ou virar logo um da pesada.

– Parece que a professora arrumou um cargo não sei onde e vai embora de lá. Essas coisas de política, né, porque foi lá um Deputado, falou com ele e com a professora. Garantiu que iria dar um jeito de resolver a situação.

– Minha mãe, quando falei isso para ela, comentou  que ficou mais fácil arrumar uma transferência para a professora, né! Ela sairia feliz, porque estava sendo promovida, valorizada, e ainda saia de perto do Paquito. Enquanto isso, o moleque ficava mais livre.

– Aí, minha mãe comparou esse caso com o dela e do meu pai, lá no Acre.

– No Acre, o meu pai foi demitido porque participou de uma greve de motorista. Preferiu ser demitido a não exercer o direito de greve. Nessa mesma época, e pelo mesmo motivo, minha mãe perdeu o emprego de professora. Eles não eram concursados, tinham cargos políticos, nomeação pelo prefeito.

– Quando fizeram greve, foram contra o prefeito. Todo mundo que fez greve foi, aos poucos, sendo mandado embora, com um monte de desculpas. Era sempre assim, os governos arrumavam as soluções mais fáceis, aquelas que não contrariassem os interesses deles. Resolver os problemas da escola, não resolvem, mas arrumam falsas soluções fáceis.

– Aí, como lá não tem muito emprego e ninguém quer contrariar o Prefeito, vieram para Brasília. Passaram dificuldades.

– Como estava havendo uma invasão, em São Sebastião, bem no dia em que chegaram, foram direto para lá.

– Nos dois primeiros dias, dormiram debaixo de uma árvore. Só no terceiro dia é que conseguiram umas tábuas e telhas para fazerem um barraquinho.

– Agora a minha mãe já conseguiu passar em concurso, mas ainda não foi chamada. Ela trabalha em uma escolinha particular, no Plano Piloto, mas ganha muito pouco e trabalha só um turno.

– Proêncio arrumou emprego de motorista de ônibus. Com o monte de filhos que têm, o dinheiro dos dois só dá para a comida e ir fazendo a casa, pouco a pouco.

Mas, na sua forma alegre de ser, o Átila não gostava de contar as coisas tristes da vida dele.

Bom mesmo era contar as aventuras, as molecagens nas brincadeiras, as cidades que conhecia, tudo que fazia nos ônibus, arrumando amigos em todas as viagens.

Era disso que ele gostava de falar. Das vezes em que foi chamado de “negrinho”, de “saci”, “pelé”, “tição”… ele nem queria saber.

Quando sentia um pouco de raiva dessas pessoas, dava uma de “funkeiro” e inventava um jeito de cantar e desabafar. Começava cantando algo decorado, depois inventava, ia fazendo versos soltos:

“O cachorro tem seu osso,

o gato tem o seu rato;

vida é carne de pescoço

colocada no meu prato.

         

Quem rejeita o semelhante

É um tipo de ateu:

De tudo fica distante

Sem a presença de Deus.

Meu olho é meu espelho,

Minha mão é o meu machado;

Eu não vivo de joelho

Querendo ser perdoado.

Pego a vida e vou em frente,

Quem quiser que me imite;

Quem se acha mais que gente

Não sabe nem porque existe.

Só o humilde é que pode

Passar no fundo da agulha;

E quem pode se sacode

E não cai na sepultura.

Eu sou pobre e sou preto

Mas tenho a dignidade

De encarar o bem de perto

E ter minha identidade.

Vejo o mundo do crime

Porque o mal está vencendo,

Mas um dia esse regime

Tem de acabar morrendo.

Sou menino, sou do bem,

Quero só os meus direitos;

Mas nem vem que não tem

Seu Deputado ou prefeito!

Vocês têm de governar

Pro bem da comunidade,

Não é para se arrumar

E virar dono da cidade.

Chega de conversa mole,

Chega de gente safada;

Duvido que alguém chore

Por quem nunca valeu nada!

                  

Guardava as lembranças de quando alguém dizia que ele era lindo, inteligente, um amor de menino.

Isso ele era mesmo. Era forte, sadio, desinibido até demais para a sua idade.

Os olhos eram meio esverdeados, as pupilas grandes. Tinha a forma das mãos e os olhos do pai. Os lábios, todo o rosto era bonito, ele achava. 

Ora, era lindo, sim! Que mal há em se achar lindo?  Conhecia suas qualidades, sabia que sua marca maior estava na forma simpática, naquela alegria estampada no rosto, naquele jeito bom de conversar com todo mundo.

Fora isso, seus maiores dons eram a inteligência e a memória.

Aprendia tudo com muita facilidade e não esquecia de nada.

Aquelas conversas, a maioria delas não eram coisa da cabeça dele, não! Ele ouvia do pai ou da mãe, de conversas de gente grande, gravava, pensava naquilo e usava o que aprendia.

Quando testavam falando de violência, ele lembrava das conversas que ouviu, dos livros que leu, tudo que viu na televisão… e conversava até parecendo que as idéias eram dele, mas não eram.

Um dia, ele ouviu uma conversa de umas professoras sobre ele:

– Já pensou, um negro dos olhos verdes? O que vai “chover” de namorada na horta dele! Quando ele crescer! Vai ser “o bicho”!

Andando aqui na rua, Átila viu uma velhinha sentada numa cadeira-de-rodas.

Era de manhã, umas nove horas. Passou no mesmo lugar, umas onze horas, lá estava a velha, o maior sol, e ela no mesmo lugar. Como era lugar de a molecada passar para ir para o campo jogar bola, brincar, passou de novo umas três da tarde e lá estava a velha.

Ele ficou grilado e foi conversar com ela.

Chegou, tomou bênção, e viu que a velha estava chorando, lacrimejando.

Com vergonha e com dó dela, perguntou porque ela chorava. E a velha respondeu que estava com muitas dores, queria morrer.

Ele perguntou porque ela estava ali, naquela cadeira-de-rodas desde cedo, e ela respondeu que era porque a neta colocava ela ali todos os dias. Ali ela mijava, cagava, ficava o dia todo. Era para ela não dar trabalho, não fazer a casa ficar fedida.

Ele chegou mais perto e sentiu o cheiro, viu o chão molhado. Chamou na casa e apareceu uma mulher gorda, meia idade.

Avisou que a senhora estava com dores, chorando de dor, toda mijada e cagada. A mulher soltou os cachorros pra cima dele. Chamou de negrinho besta! Que fosse se meter lá com a vida dele! Nem deu atenção direito ao menino e voltou para dentro. A velhinha, agora chorando mais, disse:

– Deus podia me levar logo! Eu queria morrer, não aguento mais sofrimento e humilhação. É assim todo dia, o tempo todo. Faça chuva ou faça sol, fico cá fora o dia todo.

– Os vizinhos é que me dão água, café e até comida. A vizinha aqui do lado é que, quando tem tempo, porque trabalha fora, me dá banho, troca a minha roupa. Por essa aí, eu morria com fome, suja…

– Nem quero falar mais nada. Essa minha neta é um cão danado. E o marido dela é um bosta mole, não vale nada, faz o que ela quer.

– Minha filha foi morar na Espanha, fiquei só com essa diaba aí! Minha vida virou esse inferno! Deus já deu castigo a eles, o filho deles morreu e ela não pode mais ter filho.

– A casa é minha, e eles me fazem isso. Moram de favor na minha casa e me tratam desse jeito. Foram ao juiz para me declarar incapaz, mas o juiz não deixou.

– Isso foi logo depois que a minha filha foi embora, transferida do emprego dela. Depois disso, tem uns dois anos, vivo desse jeito. Antes eu ainda andava, cuidada malemá de mim. Agora estou muito fraca, doente, não consigo mais.

Átila deixou os amigos irem para o campo e voltou para à casa do tio. Disse que precisava fazer uma coisa, voltaria logo. Pegou o telefone da denúncia anônima e entregou, denunciou tudo direitinho.

Pediram para falar com alguém adulto, para confirmar a história, porque voz de uma criança podia ser um trote.

A Tia pegou o telefone e confirmou tudo. Ela mesma via aquela velha naquela cadeira de rodas, todos os dias, mas achava que estava só tomando sol.

A atendente disse que iria passar um rádio para a polícia e, dentro de uma meia hora, iria alguém buscar a velha e prender a neta.

Átila nem acreditou muito, mas ficou um tempo em casa, impaciente.

Quando achou que a polícia já podia estar lá, foi ver.

De longe viu um carro de polícia e uma ambulância.

A velha foi colocada na ambulância e a neta no camburão.

Ele sorriu feliz, deu pulos de alegria. A vizinhança estava ajudando, contando o que via e se oferecendo para testemunhar.

Umas trinta pessoas estavam em volta do camburão.

Ouviu o policial falar para a mulher gorda e bruta que ela estava sendo presa por desrespeito ao Estatuto do Idoso, por maus tratos, por abandono de idoso, por tentativa de apropriação indébita de domicílio e por discriminação racial.

Poderia ter ouvido mais, mas já estava pulando de alegria.

Só de ver aquela anta, aquela baleia assassina sendo presa, tinha valido a pena ter denunciado. Só de todo mundo da rua ver aquela Orca sendo presa, já era uma punição, uma vergonha exemplar.

Só depois que o camburão saiu, com a rua toda batendo palma, falando mal da tal mulher, Átila foi para o campo jogar.

Perdeu mais ou menos uma hora de futebol, mas valeu a pena! Aí foi que jogou bem mesmo, fez um monte de gol.

O dia de Natal chegou e, desde cedo, ele ficou esperando que os pais dele chegassem, trazendo suas três irmãs e os dois irmãozinhos gêmeos, os caçulas.

Brincou o dia inteiro, mas não tirava os olhos do rumo do ponto de ônibus.

Mas, só à noite, eles chegaram. O pai teve de trabalhar até as 18h.

Aí a festa foi grande, com o quintal todo enfeitado, churrasco de frango e linguiça de porco na churrasqueira, até chegar a hora da janta.

Muito refrigerante, vinho, champagne e cerveja. No forno do fogão, um peru e um pernil estavam assadinhos, num cheiro que exalava pela casa inteira!

Ainda meio tímidas, as irmãs do Átila ficavam mais no colo dos pais ou sentadas.

Depois, quando ganharam brinquedos, saíram correndo pela casa toda, rindo, brincando.

Aí a festa ficou animada, uma correria só.

Vieram outros primos e tios, parentes da Tia Nazareth, cada um trazendo uma comida diferente: saladas, salpicão… umas comidas que Átila nem sabia o nome.

A mesa ficou cheia, decorada com frutas de todas as cores e aquelas bandejas com comidas a valer. A festa foi grande, com gente cantando, dançando, brincando e a meninada correndo por todos os lados.

Todo mundo ganhou presente, brinquedo e roupa nova.

Virou aquela correria. Já bem tarde da noite, quando inventaram uma brincadeira no quintal, colocaram os meninos todos para brincar de esconder e, nisso, o Papai Noel passou e deixou os presentes.

Ninguém viu o Papai Noel, porque ele passou rápido, fazendo as entregas pelos endereços. Só entregou o saco de presentes, por cima da grade, e foi embora.

O Tio Noriberto pegou o saco, levou para o quintal e foi entregando.

Logo os outros pais se juntaram e foram entregando os presentes, cada um com um recadinho do Papai Noel, um bilhetinho no Cartão de Natal.

Em cada embrulho tinha o nome da criança que iria ganhar aquele presente.

A meninada fez um círculo e ficou pulando, sapateando, na maior ansiedade para saber logo o que havia ganhado.

Antes de servir a janta, a Tia Nazareth reuniu a família toda, fez uma celebração agradecendo a Deus por aquele momento tão lindo.

Todo mundo rezou, fez pedidos e agradecimentos naquele “minuto de silêncio” em homenagem a Jesus Cristo.

Depois, foi a vez de cada um falar um pouquinho, nem que fosse um “muito obrigado, Deus”. Pela primeira vez, o Átila sentiu-se sem voz, sem saber o que dizer.

Queria falar tanta coisa, mas a voz não saía. Só saiu, mesmo com voz tremida, um “obrigado, Deus” e o “Feliz Natal”!

O resto da noite, foi festa só. Só brincar, correr, divertir.

Era tanta comida, mas tanta comida: peru, pernil, frango, fruta de tudo que é tipo, arroz, feijão, salada, maionese… Era comida para uma rua inteira! Comeram que comeram, depois foram brincar mais, até ficarem cansados.

Mais tarde, Átila sentou-se no colo do seu pai, que estava conversando com o Tio Noriberto e uns outros homens, ouviu falarem de uma viagem:

– Onde vocês vão passar as férias, mesmo?

– Lá no Ceará, nas praias. Uns dias, ficaremos em Fortaleza, na Praia do Futuro. Nos últimos dias, vamos para Morro Branco.

Átila ficou ouvindo. Só então, percebeu que não conhecia o mar. No Acre, não tem mar nem em Brasília. Sem perceber, falou meio cochichado, mas o Tio Noriberto ouviu:

– Eu queria tanto conhecer o mar!

Proêncio não ouviu direito o que o filho falou, mas o Noriberto perguntou, meio sem saber o que dizer:

– Quer ir com a gente, Átila?

A essa altura, os filhos do Noriberto já estavam por perto, porque agora só ficavam onde o Átila estivesse, deram logo o grito:

– Oba! Oba! O Átila vai para a praia! O Átila vai para a praia com a gente!

Falavam e pulavam.

Saíram correndo, para dar a notícia às mães, lá para dentro. Átila permaneceu no colo do pai, sem saber o que responder. Olhava para o pai, que parecia não estar entendendo nada, depois de uns copos de vinho e umas cervejas. O Tio perguntou, novamente:

– Quer ir para a praia comigo, Átila?

Mais uma vez, não sabia o que falar, não tinha resposta. Claro que queria, mas não podia responder, porque o pai lhe ensinara a não ser oferecido, a não ser intruso.

Foi por isso que passaram quase dois anos sem procurar pelo Tio Noriberto. Mesmo morando na mesma cidade, não era muito perto.

Mesmo com as dificuldades que estavam passando, o pai não quis procurar o irmão e pedir ajuda. Só faria isso se estivesse passando fome.

Foi difícil, mas conseguiu. Só depois que arrumou emprego e fez um barraco, normalizou a vida, telefonou para o irmão. Mesmo assim, não ficou visitando nem pedindo ajuda.

Quando o Noriberto foi lá, tomou conhecimento da situação da família. Na primeira vez, levou alguns presentes para os meninos e ofereceu ajuda para comparem uma geladeira. Proêncio não aceitou a ajuda, mas Noriberto comprou e mandou de presente.

Voltou depois, com a tia Nazareth, mas não levou mais nada, nem os filhos. O Proêncio e a Margareth não gostavam de ser “peso morto” para ninguém. Quando precisassem, de fato, e não houvesse outra saída, procurariam ajuda.

– Sei não, Tio – Respondeu o Átila. Minha vida é meu pai quem sabe.

– Então, peça a ele.

– Pai, o Tio está me convidando para ir à praia com ele. Eu posso?

Os primos já haviam voltado da cozinha, pulando, gritando. Não deram tempo de o Proêncio entender direito a pergunta e já gritaram:

– Pode, pode! Pode, pode!

Meio perdido com aquele barulho, aquela festa toda, Proêncio respondeu, meio sem saber do que se tratava:

– Pode! Se ele está convidando, é teu tio, então pode. Não sei o que é, não, mas pode.

A meninada virou uma festa só, arrancando o Átila do colo do pai e jogando-o para cima. Arrastaram-no para o quintal e foram brincar.

Naquela noite, depois que arrumaram as camas, espalhadas pela casa toda, Átila não conseguiu dormir logo. Só pensava nas roupas novas que ganhara, na bola nova e na praia. Rolou na cama até não aguentar mais e cochichou baixinho:

– Hoje é o dia mais feliz da minha vida! Vou dormir e só quero acordar lá na praia.

Quando fechou os olhos, parecia estar ouvindo as ondas do mar.

No escuro do quarto, mesmo de olhos fechados, parecia estar vendo estrelas no céu e seus reflexos na água.

Lembrou-se de que não sabia nadar e isso o fez pensar numa música. Enquanto cochilava, cantarolou mentalmente uma música que ouviu um cantor, um tal de Milton Nascimento:

“Quem me ensinou a nadar,

quem me ensinou a nadar,

foi, foi, marinheiro,

foi os peixinhos do mar!”

 

Gênero: Conto infanto-juvenil.

Nível 2- Indicado para a partir de 8 anos.

Autor: José Ferreira Simões (J. Simões)

Ilustração: Élisson

Editoração Eletrônica: Aline Flávia Damásio Simões

Síntese: Átila, o Garoto Cidadão – um garoto pobre e negro se torna defensor das pequenas causas cidadãs, no que é incentivado por um tio. É criticado, inicialmente, depois, apoiado pelo tio e os primos. Torna-se um agente social contra as discriminações e segregações. Alimenta o sonho de se tornar advogado. É uma história de discriminações e inclusões sociais que busca despertar e discutir valores morais e sociais em estilo literário.  Recomendado para a partir dos 8(oito) anos.

 

 

 

 

 

 

COMENTÁRIOS

Nelci Rigonato da Silva – Professora – GRET (18/11/2002)

       De uma forma direta e interessante, o livro trata de um tema muito importante e atual: a luta pelos direitos do cidadão. O fato de a personagem título ser um garoto negro, pobre, possuidor de um sotaque singular, estimula o debate sobre o problema da discriminação tantas vezes vivenciada dentro da escola.

       A obra apresenta, ainda, alguns importantes pontos para reflexão: sobre o uso de bebidas alcoólicas, sobre a atitude de dependência que certas pessoas assumem em relação a outras em detrimento de sua própria dignidade, sobre a importância do ato de ler e sobre os riscos do hábito de ler em veículos em movimento. Os versos são uma atração à parte.

Átila, o garoto cidadão!

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